Adorável vigarista
Depois da Sônia Braga e suas inesquecíveis coxas, Marcelo Nascimento da Rocha é o maringaense mais ilustre que eu conheço.
Tá certo que o cabra pisou na bola transportando (de avião!) cocaína para o tráfico, mas disso ele próprio, que está enjaulado em Cuiabá, se arrepende profundamente.
Já o episódio que o consagrou – passar-se pelo dono da Gol no Recifolia, escancarando as futilidades do mundo da fama, pilotando helicóptero dos ricaços, dando entrevistas ao Amaury Jr e seduzindo celebridades – é sem dúvida objeto de admiração.
Dizem que o filme VIP´s, baseado na história dele e encenada pelo insosso Wagner Moura, é de uma pasmaceira só.
Mas o documentário que originou o filme, uma produção independente de Mariana Caltabiano, é primoroso e pode ser visto de graça ou baixado pela net.
As raízes familiares e sociais da picaretice, entremeadas de animações e depoimentos das pessoas envolvidas no episódio do Recifolia, com toques de outras peripécias de Marcelo (como liderar uma rebelião em Bangu), informam e divertem com bastante propriedade. Recomendo!
Impressões de Amazônia
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Isolamento
A primeira sensação é de isolamento profundo. Passaram-se 40 horas desde que saímos de Manaus, com 2 pernoites no caminho, e só então pude avistar, numa manhã de terça, a comunidade de Lago das Pedras. Nem buteco, nem pracinha, nem luz elétrica, nem orelhão que não funciona. São 11 casinhas, algumas com teto de palha, e um centro comunitário inaugurado no ano passado. Ficaríamos ali ao longo da semana.
Plenitude
Já no segundo dia a inquietação transformou-se em plenitude. Não há algo melhor do que o silêncio ao invés de milhares de zumbis falando besteiras em celulares, nada é mais pleno que a paisagem livre de automóveis e propagandas. Sem o supérfluo da cidade, torna-se tudo mais verdadeiro.
Lago das Pedras
A comunidade de Lago das Pedras é uma das 11 esparsas ao longo do Rio Unini, afluente da margem direita do Negro. Tem esse nome porque estamos num ponto que é um apêndice do Rio, embora a imensidão de águas torne difícil identificar o detalhe; só se chega ali através de um “furo” na mata (é como chamam os pequenos canais). As comunidades do Rio Unini conformam uma RESEX (Reserva Extrativista), cuja castanha é o principal produto.
Negro Rio
Viajamos a bordo do Almirante Barbosa, que tem uns 30 m de comprimento, 2 andares onde aboletam-se as redes de dormir, cozinha, despensa, 2 banheiros, sala de comando e casa de máquinas. É preciso vista muito acurada, sobretudo nos trechos noturnos. Seu Aguiar, o comandante, não tem bússola ou GPS à disposição. O caminho é um labirinto de infinitas ilhas, em águas salpicadas por rochedos e bancos de areia. Volta e meia, ele jogava um facho de luz na margem, e diz que assim conseguia se localizar. Como saber, no meio de um visual tão homogêneo, qual é o “furo” que conduz ao Lago das Pedras? Mais um entre os tantos mistérios amazônicos.
Mosaico de Amazônias
A RESEX do Rio Unini, junto com as RDS* Rio Negro, Amanã e Tupé, os PARNA Jaú e Anavilhanas, os PAREST Rio Negro Setores Norte e Sul e as APA Paduari-Solimões, Aturiá-Apuaúzinho, Tarumã- Açu e Tarumã-Mirim, compõe o Mosaico de Áreas Protegidas do Baixo Rio Negro. É um instrumento de gestão compartilhada, potencializando esforços, recursos e pessoal, aliança de inestimável importância frente a Amazônia e seus superlativos.
A chancela de Mosaico foi dada pelo ICMBio no ano passado, concluindo uma série de procedimentos que duraram 5 anos. A partir daí, foi prevista uma jornada de 4 módulos de oficinas de capacitação para a equipe de conselheiros do Mosaico, formada por representantes das áreas protegidas, organizações da sociedade civil, setor empresarial e comunidades. É aí que eu entro nesta história.
Toda ação vem da imaginação
No 4o. e último módulo de oficinas, a comunicação foi um dos temas escolhidos pelos conselheiros. Fui convidado a trabalhar o assunto, junto com Layse Rodrigues (ICMBio/RJ), que é responsável pela comunicação do Mosaico Central Fluminense, cujo presidente é o companheiro dela, Breno Herrera, que também estava presente para compartilhar sua experiência como gestor.
Na minha oficina discutimos conceitos básicos envolvidos no ato de comunicar, com enfoque voltado à valorização de territórios. É missão do Mosaico fortalecer a identidade territorial, buscando soluções comuns aos seus povos e à conservação da biodiversidade. Guardadas as devidas peculiaridades geográficas, apresentei vários processos que acompanho aqui no Sul, de agroecologia ao turismo, passando pelo fortalecimento cultural através da gastronomia. A intenção era provocar, estimular, plantar ideias que as comunidades colherão conforme suas próprias estações. “Toda ação vem da imaginação”; este foi, em síntese, o lema do que apresentei por lá.
Logística
Não é fácil organizar uma expedição como esta. Nossa casa-barco tem que levar tudo: comida para 20 pessoas durante uma semana, cozinheira, combustível para barcos e geradores, lancha extra, equipamentos diversos. O que fazer lá naquele confim amazônico, se algo fosse esquecido? Palmas para a Fafá (Ana Flávia Zingra Tinto), presidenta do Mosaico e chefe da RESEX do Rio Unini, que foi exemplar no quesito logística, e em todos os demais.
Os guardiões
Eu considero a Fafá, o Alexandre, a Jô e o Fábio, do ICMBio de Novo Airão, e também a Thaia Cacciamali do INCRA, que deu uma brilhante palestra sobre a questão fundiária, como verdadeiros guardiões da Amazônia. A expansão da fronteira agrícola, nos moldes do Sul, com a “força da grana que ergue e destrói coisas belas”, pode acabar com tudo. Esses guerreiros fazem o que podem, a duras penas, para conservar a integridade daquela porção amazônica.
Antigamente, o IBAMA (que originou o ICMBio), era visto como um vilão. Também, pudera: o extremismo conservacionista produziu absurdos, como atravessar uma corrente de fora a fora no Rio Jaú, em 1985, impossibilitando o trânsito de ribeirinhos. Hoje, em muitos casos o ICMBio é a única presença do Estado em comunidades isoladas. O conceito de preservação evoluiu e não exclui as populações tradicionais, filhas e herdeiras do território. Ocupá-lo com responsabilidade é dever de todos, Estado e “comunitários”, como se denominam os ribeirinhos.
De colores
Passamos uma semana incrível. Todo fim de tarde íamos ao meio do lago para bons mergulhos. E de longe víamos nossa casa-barco, que nos aguardava com os deliciosos jantares da dona Sol, e com as redes que nos ninavam nas noites tranqüilas. Um dia, os nativos nos convidaram pra uma pelada. Fazia 10 anos que não me aventurava num campo (desde que nosso coletivo esportista de Floripa, a Sociedade dos Atletas Mortos, desfez-se quando um dos parceiros rachou o pé numa partida). Foi uma brincadeira deliciosa.
Quando voltávamos de visita à base do PARNA Jaú, vi uma das mais belas cenas desta breve vida. Um arcoíris dançava com suas duas pontas sobre o rio, inteirinho. Parecia que dava pra tocá-lo. Puro encanto amazônico. Por este e outros tantos motivos coloridos, fotografar era o passatempo predileto. Fotografia, para mim, é uma condição de imersão. Justamente como eu me sentia naquele ambiente.
Passos leves
No último dia, selecionei as melhores fotos, minhas e dos colegas de viagem, e organizei uma exposição pra comunidade. Ah, também fizemos, eu e o amigo Fábio Osolins (do PARNA Jaú), uma história em quadrinhos, com fotos de todos os personagens daquela semana. Ligamos tudo num datashow, movido à gerador, e projetamos em frente a uma das casas. Depois do agito a juventude local deu o tom: queremos baile!
Seu Pagão, o pastor (apesar do nome paradoxal), e seu Dionisio, o presidente da comunidade, autorizaram. Colocamos nossas músicas, mas ninguém deu bola. Então trouxeram os CD’s corretos. Foi brega, forró e dance pra ninguém botar defeito. Seu Pagão não abandonava nem por 1 minuto a porta do baile, cuidando de tudo. Quando algum engraçadinho apagava a luz, ele até deixava, mas só um pouquinho: logo apertava o interruptor de novo. Caboclinhas lindas deslizavam seus passos leves pelo salão, alheias aos suspiros da platéia.
Um pouco de mim
Por conta dos vôos e compromissos na cidade, nós, os professores, fomos embora de voadeira na manhã do sábado (26/03). Com motor de 60 HP em potência máxima, foram 3 horas e 40 minutos de ilhas, matas, afluentes e “furos” Rio Negro abaixo, até o município de Novo Airão. O Almirante Barbosa chegaria somente de noite.
Um pouco de mim ficou na Amazônia, e eu sei que um dia volto pra reencontrar.
*Sopa de letrinhas
RDS: Reserva de Desenvolvimento Sustentável
PARNA: Parque Nacional
PAREST: Parque Estadual
APA: Área de Proteção Ambiental
ICMBio: Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade
Há limites para a liberdade de expressão?
Recebi estas pérolas através de uma mala-direta, à qual fui adicionado sem autorização, e que teoricamente apenas traria informações sobre ciclismo no Sul do Estado. Está na íntegra e sem qualquer alteração:
“A mulher esta evoluído e o homem sendo cobrado vários são presos simplesmente por ser pai e lógico pela falta de não ter dinheiro isso tem o mesmo peso de um criminoso a autoridade .
E por fim é muito fácil prender um pai e por na cadeia e deixar varias de mulheres drogadas bêbadas na qual tem e muitas vezes são protegidas pelo fato único de ser mulher porem não se leva em consideração que muitas estão ai matado traficando são usuárias de drogas em por fim ainda dizem que tudo isso e normal.
“Como diz a tia Dilma vamos Ôrra as mulheres”
Mais vamos lembrar a todos que quem botou a mesma na presidência foi um homem chamado LULA”
Na seqüência, o sujeito fundamenta sua tese com 2 notícias pescadas na net:
| 08/12/2010, 17:32 |
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A Polícia Civil de Forquilhinha prendeu dois homens nesta quarta-feira, dia 08, por não pagarem pensão alimentícia.
J.C.P., 33 anos, e J.M.L., 26 anos de idade. Os dois homens estão sendo encaminhados para o Presídio Santa Augusta. |
Polícia – 08/12/2010 – 10h55min
Araranguá – A Polícia Civil de Santa Catarina, através do Setor de Inteligência da Central de Polícia de Araranguá, em cumprimento a Mandado de Busca e Apreensão, prendeu em flagrante Anelise dos Santos Shardosim Garcia, 25 anos, em sua casa, por tráfico de drogas e posse ilegal de arma de fogo, ontem (7), em Araranguá. Anelise, que não tinha antecedentes criminais, foi levada ao Presídio Regional de Araranguá.
A Polícia Civil estava investigando Anelise sob suspeita de ela estar ocultando armas e substâncias entorpecentes para o irmão, Josué dos Santos Shardosim, já condenado por tráfico. Em decorrência do cumprimento do Mandado, foram encontrados no suporte da cortina da janela da sala de sua residência uma Carabina calibre 22, 22 cartuchos do mesmo calibre e 13 pedras de crack embaladas para comercialização.
Não poderia ter tido maior fortuna do que acompanhar um dia de campo dos alunos do VAPRAQ (Valorização dos Produtos Agroalimentares de Qualidade), curso que ocorre pelo convênio entre a UFSC, a Universidade de Teramo e o Slow Food.
O que seria uma “simples” visita a coletores de castanha acabou em muita música popular de Abruzzo (a região da Itália onde estávamos), com umas pitadas de samba e até mesmo uma quadrilha de São João.
O caminho até o distrito de Leofara, na Villa Castellana, por si só já foi um espetáculo. Uma estrada muito estreita vai subindo as montanhas, ao longo do Parque Nacional do Gran Sasso e do Monte da Laga, e a cada curva uma explosão de cores salta às retinas.
Os picos nevados foram outra dádiva: era o primeiro dia de outono em que eles estavam daquele jeito!
Em Leofara visitamos a cooperativa ARE, de coletores de castanha e marone, que é quase igual, mas um pouco mais saborosa segundo os entendidos. Andamos nos belos bosques nativos onde se faz a coleta. O fruto é uma bola de espinhos, e só com mãos calejadas para manejá-lo sem se dar mal. Eles caem e o povo vai catando, separando as castanhas e enchendo o balde.
Depois fomos à cantina da cooperativa degustar uns pratos à base de castanha. Vinho, muito vinho, e até aí tudo na mais completa normalidade.
Mas eis que surgem dois músicos, um com acordeon e outro com um instrumento que não me recordo o nome. Começam a tocar e os brasileiros vão dando corda, a cada breve intervalo abastecem-se de vinho, e a coisa começa a esquentar. Então a Alessandra, que até então era somente a garçonete e filha do dono da cantina, resolve abrir o gogó, para surpresa geral. Timbres poderosos invadem o ambiente, levando todos ao delírio.
Quando tudo estava prestes a acabar, peguei um pandeirão e puxeu uns sambas. Pronto, foi a deixa pra tudo recomeçar. Os músicos reanimaram, mais um pouco de vinho, e a festa continuou do lado de fora da cantina. Neste momento eu já estava completamente apto a acompanhá-los, com pandeiro, nos ritmos da Pizzica, Tamurriata e Saltarella, pura música popular abruzzesa.
Alessandra então organiza o baile e inicia todos na dança típica. Ninguém mais ficava parado. O vinho secava e o corpo suava. Quem foi que disse que ginga é apenas dom de brasileiro? Neste momento um dos músicos, enamorado de uma das alunas do VAPRAQ, ajoelhou-se perante a bela desfiando seu acordeom em tons de paixão. Romance geral…
Tudo terminou com uma bela quadrilha, proposta pelos anfitriões. Igualzinho às nossas danças juninas!
Adeus Abruzzo, quem sabe um dia eu volte para desvendar outros mistérios de suas fantásticas montanhas!
O Cesinha é um acreano (sim, o Acre existe) que baixou por Floripa em meados de 96. Por coincidência no mesmo mês e ano que também cheguei por aqui. Tínhamos razões bem opostas pra migrar. Ele, por estar desiludido com a derrota da Frente Popular na prefeitura de Rio Branco. Eu, então um mancebo com 17 anos, para fazer Engenharia na UFSC.
Eu o conheci quando tinha alguma simpatia pela política, e adorava acompanhar os discursos do DCE. Em sua grande maioria, os militantes eram uns paspalhos que falavam com a boca escorrendo e cultivavam o sonho pueril de instalar a Revolução Socialista, um povo anacrônico, autoritário e chato.
Mas o Cesinha era diferente. Falava aos corações e mentes, mas primeiro aos corações; inundava de poesia os discursos, sabia no fundo que somente a arte era capaz de fazer transcender nossa miséria como mortais.
Depois de anos militando, entregou-se de corpo e alma à vida de artista. Teve muitas parcerias, tanto férteis quanto inusitadas, algumas efêmeras como é quase tudo nesta vida. Na maior delas, compondo delicados arranjos de música e poesia com vários músicos, no grupo batizado de Margem Esquerda, chegou a fazer uma turnê pela Espanha.
A poesia escrita ele herdou dos tempos do Magistério e de estudante de História no Acre, em contato com artistas populares do naipe de um Hélio de Melo, e tantos outros. Quanto à poesia falada, conta que a estreia foi no justo dia que desembarcou em Floripa.
Hospedou-se, sem saber (?), num hotelzito de moças desprotegidas que trabalham de madrugada na rua, lá na Conselheiro Mafra. Nos 4 dias de viagem de ônibus, vinha lendo um poema que o fascinara, tanto que decorou. Para quebrar o gelo no ambiente, subiu nas escadas, abriu o gogó e declamou os versos recém-decorados, tendo como espectadoras as putas – eis aí a sua habitual tendência de levar arte a qualquer canto.
…
Tive o privilégio de compartilhar uma casa com o Cesinha, onde também viveram os amigos Zeca, Dudu, Caio, Ninno e Guilherme. Era a Gruta dos Píkaros. Bons tempos, pouquíssima grana, portanto pouquíssimo compromisso, mas a alegria corria solta, irmanada, atravessando festas, encontros, casualidades.
Cesinha era o responsável pela multiplicação dos pães. Juntávamos uns trocados e geralmente não passava dos $5 ou $6 reais. O montante era convertido em biomassa no Sacolão da Lagoa, e ele fazia comida para 10. Mais em conta que Restaurante Popular!
No final de 2009, fazia 8 anos que ele não voltava pro Acre e também não via sua mãe. Ganhou uma passagem dos tios. Convidou alguns amigos de Floripa pra lhe acompanharem na terra natal. Eu, Tadeu e Dió topamos.
Estando em Rio Branco, pra mim ficou claro o que muitos já temiam. Cesinha não voltaria tão cedo pro Sul. Deixou saudosa uma legião inteira, de amigos que enxergavam mais cores na vida quando ao lado dele. Mas agora Raimundinha precisava deste brilho. Raimundinha teve 2 filhos. Um deles morreu assassinado. Tiro nas costas, matador jamais localizado. O outro é o Cesinha.
Ele agora está ao lado da mãe, dos seus povos da floresta, das suas origens tão bonitas.
…
De carona com o tio Zé Bezerra, figura caricata, deixamos Rio Branco na manhã de 06 de janeiro deste ano. Eu, Tadeu e Dió íamos pra fronteira com o Peru, seguir viagem. Cesinha mirava a fronteira com a Bolívia, município de Brasiléia, com sua contígua boliviana Cobija. Buscava o reencontro com o pai: 13 anos se passaram desde o último contato.
A referência de endereço não era, precisamente, na área urbana de Brasiléia. Era assim: “o sítio fica 17 km antes da cidade”. E só.
Chegamos ao ponto onde mandavam os cálculos de distância e a intuição. Havia cercas dos 2 lados, e uma porteira trancada. Ao lado dela 2 trabalhadores faziam suas lides. Perguntamos pelo Zé Pio. Responderam:
- Fica aí pra dentro, uns 3 km. Cuidado, tem cachorro bravo.
- Me empresta tua magrela?
- Pode usar.
- Cesinha, vou buscar teu pai.
Montei na Ceci e logo nos primeiros metros percebi que do freio não havia sequer resquício. As folgas nas peças eram até aturáveis, mas parar a cada 300 metros pra recolocar a corrente, não foi fácil. Sobe, desce, morrinho, encaixa corrente, ponte quebrada, poça, encaixa corrente, lama, cheguei n’outra porteira. O cachorro bravo era um guaipeka de dar dó.
Chamei e vieram 2 guris, um de uns 10 anos e feições indígenas, o outro já adolescente, mais mestiço. Anunciei o vivente que vinha do Sul. Me chamaram para entrar, a casa avarandada pequena e simples, ferramentas, brinquedos espalhados pelo chão, um calendário com propaganda de empório.
Zé Pio não estava. Ligaram para o pai, o celular rural funcionando a duras penas, insistiram até o aparelho dar uma chance, e marcaram um ponto de encontro na cidade.
Lama, poça, corrente, morrinho, etc., volto e no caminho dou de cara com Dió e o Cesinha, ele com seu andar de índio guerreiro e um robusto pedaço de mourão nas mãos.
- O q houve Fernandinho?
- Nada, a viagem não foi fácil, e demorou o contato com teu pai.
- Ah bom, pensei que o cachorro tinha te atacado !
…
Logo que voltei de um ritual de Daime na Barquinha, a querida Raimundinha me fez várias perguntas sobre o resultado, muito interessada. Lá pelas tantas perguntou:
- Fernandinho, você acha que eu consigo conversar com meu filho que morreu, se eu tomar o chá?
Meio sem jeito, respondi que o poder do Daime era bem forte, e que valeria a pena tentar.
…
Surge o desejo e a possibilidade de tomar o rumo Norte novamente neste fim de ano. Cesinha diz que já se prepara pra receber uns tantos aqui do Sul. Se algumas conjunturas e a Igreja dos Santos Créditos nas Finanças Pessoais permitirem, embarco sem dúvida. Desta feita, quem sabe, esticar a Manaus e ao Pará pra ver outros amigos desgarrados (Ninno, Rafito, Pacheco…)
Alguém se habilita?
O Brasil de todos os Sertões
Há o Sertão, um “Desertão” à Oeste perseguido por bandeirantes e outros aventureiros no Brasil de 1700, há o Sertão universo-simbólico e
metafísico da obra de Guimarães Rosa, que na pele do personagem Riobaldo dizia que “o Sertão está em toda parte”, o Sertão agreste de paisagem retorcida seca e brava nos confins do Nordeste, o ConSertão “passeio musical pelo Brasil” da obra fonográfica que uniu os virtuosos Artur Moreira Lima, Eraldo do Monte, Paulo Moura e Elomar.
Aqui em Floripa a Beira-Mar Norte cresceu e a Beira-Mar Sul está crescendo e já tem tanto engarrafamento e mesmo assim há o Sertão do Córrego Grande, o Sertão do Pantanal, o Sertão do Rio Vermelho, o Sertão do Peri, cantinhos de mundo que sossegam à revelia do tempo corrido.
E é só sair um pouco mais da Ilha que teremos o Sertão do Pagará, o Sertão do Sul do Rio, o Sertão do Maruim, o Sertão do Rio Inferninho, o Sertão do Tabuleiro, e enfim uma de série recantos que por estarem mais resguardados, um pouco distantes, no recolhimento do interior, foram batizados com o sugestivo nome de Sertão – palavra sem análogo em qualquer outra língua.
Eis uma pequena noção de que o Sertão vai bem além da aridez nordestina, e é fruto sobretudo desta vastidão de terras e cenários que é o Brasil. É nesta amplitude de significados, e sabendo que por trás de cada canto de terra há um Sertão brilhante e puro, palco de Cicloviajar e partilhar paisagens, é que batizamos nossa empresa de Caminhos do Sertão. Também por acreditar no potencial empreendedor do Turismo de Aventura, descentralizando parte dos destinos e assim consolidando um importante vetor de desenvolvimento territorial, para além dos pólos tradicionais.
Quer compreender ainda mais o Sertão? Então sim´bora correr trechos no lombo da magrela, girar o pedal e descobrir Caminhos na contramão do óbvio, e obviamente pavimentados de paisagens e surpresas, curtidos pelo barato da serotonina que se espalha pelo corpo num prazer gratuito e completo, como voltar a ser criança. Venha cicloviajar conosco !
Pingos de utopia
Teve uma época em que eu, na condição de artista diletante, fazia hai-kais para ilustrar umas fotos minhas. Essaí foi lá perto da casa dos meus pais, em Maringá. Todo inverno é um espetáculo assim. A foto foi resgatada pelo amigo Cesinha, (que deve estar destilando seus poemas, deixando muitos com saudade).
Angioletto o Diavoletto?
Numa dessas deliciosas oportunidades que o trabalho proporciona, calhou-me de ser indicado a viajar pra Itália, em outubro próximo.
A missão é acompanhar um casal de produtores de farinha de Angelina, os srs. Celso e Catarina, e gravar a interação deles com o restante do mundo durante o Terra Madre, para um documentário que estamos produzindo sobre os Engenhos ativos aqui de SC.
A expectativa desta viagem tem me transformado bastante – não só pelo tesão de viajar (eu desconfio profundamente de quem não tem tesão por isso), mas pela sensação de poder montar um quebra-cabeças da minha própria história.
Meu pai a vida toda foi funileiro e pequeno comerciante; meu avô paterno, peão de fazenda no interior de São Paulo. Já meu bisavô, até onde sabemos, veio da Italia. É tudo o que eu sei: “veio da Italia”. E nos legou este sobrenome, Angioletto, que significa Anjinho numa tradução literal.
Empolgado com a viagem, iniciei umas aulas de italiano. A professora é a Giulia Piccini, esposa do amigo Trida, um trotamundos de verdade, que já bateu pernas por muitos cantos deste mundão, e nessas andanças tornou-se um chef de cozinha de puta madre (em posts futuros, comentarei suas proezas culinárias).
A Giulia é italiana; percebo que ela curtiu a ideia de um vira-latas como eu correr atrás da própria história, história atrelada ao país dela. Ela suspeita que a origem dos Angioletto seja a região da Toscana. E que a denominação da família pode indicar algo como “um clã cordial”, “pessoas boazinhas “(?), etc.
Pelas dicas da Gabi, amiga que já zanzou bastante pela Itália (e inclusive viajou de trailer com a mãe da Giu ! ), cheguei ao site do Memorial do Imigrante. Numa consulta rápida, já descobri: os parentes que me trazem o elo genético com a Itália desembarcaram no Brasil em 29/09/1891. Eram 4: Antonio, Emilia, Angelo e Gabriele. Que emoção saber destes nomes. Que desejo enorme de saber em que condições vieram, o que faziam e onde moravam no Velho Mundo, como se adaptaram no Brasil.
Há muito o que se pesquisar, e eu pretendo seguir adiante. Se conseguir mais pistas sobre a cidade de origem destes parentes, quero visitá-la, e desenhar na minha retina paisagens tão caras aos meus ancestrais.
Enquanto isso sigo nas divertidas aulas de italiano. A Giulia faz sempre umas pausas muito legais, sobretudo pra falar dos filmes, da gastronomia e dos vinhos italianos. Eu adoro. Numa dessas me contou que durante o início do outono, justamente quando estarei por lá, vinícolas do país inteiro abrem suas portas e regalam o público, “digrátis”, com seus vinhos jovens e uma abundância de petiscos.
Realmente, eu agora estou convicto de minhas origens. Já me vejo de bichierre em punho sorvendo essas delícias. E perdido no eterno dilema de ser Angioletto ou Diavoletto.
Desconfio que jamais voltarei pra cá.
As memórias do seu Biega
Seu Biega habita um dos mais belos recantos do Litoral Catarinense. Não é a toa que chama-se Encantada aquela lagoinha calma, que reflete o sol e a lua, no fundo do terreno dele.
O pó da farinha agrava a bronquite, mas ele é renitente. Diz que, enquanto estiver vivo, jamais perderá uma sessão de farinhada em seu Engenho.
A idade impede funções mais pesadas, como sevar a mandioca ou prensar a massa. Mas é dele a honrosa função de forneiro. Não há, segundo o próprio, alguém que conheça tão bem o ponto da farinha como ele: pelo cheiro.
Pergunto sobre suas memórias mais antigas. Fala da serraria movida a água, de onde saiu quase toda a madeira usada no Engenho, construído há mais de 40 anos.
Que grata surpresa saber, no meio da conversa, que a serraria ainda era viva.
…
No dia seguinte ele me levou lá.
Montei uma câmera e deixei o Biega contando a história daquele local. Ao lado dele enquadrei o seu Iduilio, de 86 anos, que parecia não esboçar qualquer reação.
De repente seu Idulio levanta, caminha de passinho em passinho com a ajuda da bengala, e aciona uma trava de madeira na parede. Entra em ação a descomunal roda d´água, com 6,5 m de diâmetro. Eis o motor desta fabulosa serraria, funcionando como um relógio, movendo dentes nervosos loucos pra encravar em qualquer toco que lhe apareça.
Com a engenhoca, alheio aos presentes, seu Iduilio serrou algumas tábuas. Dava calafrios de ver suas mãos lentas ajeitando a tora, quase encostando na serra. Filmei tudo em silêncio.
Este blog é batizado com um palíndromo. O significado do cubo mágico, SATOR AREPO TENET OPERA ROTAS, que se lê de trás pra frente, de baixo acima, de cima abaixo e de cabo a rabo, vá você mesmo (a) procurar no Grande Guru, porquê grandes explicações genéricas já estão dadas, não perco tempo em repeti-las.
Se você intuir que o palíndromo é uma opção pela simetria, terá razão, embora limitada.
A preferência é na verdade pelo avesso.
Gosto das palavras ao contrário desde moleque em Brejo City, a velha Maringá, jóia anglo-saxônica desenhada no Norte do Paraná. Havia na cozinha de casa um purificador de água Microzon, que ao contrário se lia Nozorcim. Eu batia o olho em Microzon e lia Nozorcim, que a imaginação transmutava em Bozorcim, Bozo no Circo e por aí afora. Havia um doce fascínio pela palavra ao avesso. Daí a brincar com algumas frases ao contrário, tipo Vou soltar pipa, Apip ratlos uov, Hoje vai ter strogonoff, Ffonogorts ret iav Ejoh, foi um pulo, embora isso jamais fosse um palíndromo – não tinham sentido no caminho inverso.
Só quem deu bola para esta minha admirável dotação foi meu avô paterno. Dizia ele: “vou te levar ao Silvio Santos”. Meu avô era ex-comerciante, ex-fotógrafo, ex-oficial de justiça e ex-mágico de botecos em Maringá. O pouco que me lembro dele vem na forma de uns apetrechos toscos, que usava nos truques manjados, a entreter marmanjos com ilusionismo nas mesas de bar.
Jamais fomos ao Abravanel. O palavrório ao avesso, porém, me apetece até hoje.
Só soube que o assunto era sério quando a amiga Flavia me apresentou uma revista Piauí, durante uma excursão na Kombi Azul por redutos ao norte da Argentina. Ali eu descobri que alguns malucos reuniam-se regularmente, não somente para jogar conversa fora, mas para criar palíndromos novos, originalíssimos.
Foi ali que eu conheci o SATOR AREPO TENET OPERA ROTAS, esse arranjo de letras circular, espiral, helicoidal – uma viagem ao fascínio da simetria e do avesso.

































