O poeta Cesinha, o Acre que existe e outros causos
O Cesinha é um acreano (sim, o Acre existe) que baixou por Floripa em meados de 96. Por coincidência no mesmo mês e ano que também cheguei por aqui. Tínhamos razões bem opostas pra migrar. Ele, por estar desiludido com a derrota da Frente Popular na prefeitura de Rio Branco. Eu, então um mancebo com 17 anos, para fazer Engenharia na UFSC.
Eu o conheci quando tinha alguma simpatia pela política, e adorava acompanhar os discursos do DCE. Em sua grande maioria, os militantes eram uns paspalhos que falavam com a boca escorrendo e cultivavam o sonho pueril de instalar a Revolução Socialista, um povo anacrônico, autoritário e chato.
Mas o Cesinha era diferente. Falava aos corações e mentes, mas primeiro aos corações; inundava de poesia os discursos, sabia no fundo que somente a arte era capaz de fazer transcender nossa miséria como mortais.
Depois de anos militando, entregou-se de corpo e alma à vida de artista. Teve muitas parcerias, tanto férteis quanto inusitadas, algumas efêmeras como é quase tudo nesta vida. Na maior delas, compondo delicados arranjos de música e poesia com vários músicos, no grupo batizado de Margem Esquerda, chegou a fazer uma turnê pela Espanha.
A poesia escrita ele herdou dos tempos do Magistério e de estudante de História no Acre, em contato com artistas populares do naipe de um Hélio de Melo, e tantos outros. Quanto à poesia falada, conta que a estreia foi no justo dia que desembarcou em Floripa.
Hospedou-se, sem saber (?), num hotelzito de moças desprotegidas que trabalham de madrugada na rua, lá na Conselheiro Mafra. Nos 4 dias de viagem de ônibus, vinha lendo um poema que o fascinara, tanto que decorou. Para quebrar o gelo no ambiente, subiu nas escadas, abriu o gogó e declamou os versos recém-decorados, tendo como espectadoras as putas – eis aí a sua habitual tendência de levar arte a qualquer canto.
…
Tive o privilégio de compartilhar uma casa com o Cesinha, onde também viveram os amigos Zeca, Dudu, Caio, Ninno e Guilherme. Era a Gruta dos Píkaros. Bons tempos, pouquíssima grana, portanto pouquíssimo compromisso, mas a alegria corria solta, irmanada, atravessando festas, encontros, casualidades.
Cesinha era o responsável pela multiplicação dos pães. Juntávamos uns trocados e geralmente não passava dos $5 ou $6 reais. O montante era convertido em biomassa no Sacolão da Lagoa, e ele fazia comida para 10. Mais em conta que Restaurante Popular!
No final de 2009, fazia 8 anos que ele não voltava pro Acre e também não via sua mãe. Ganhou uma passagem dos tios. Convidou alguns amigos de Floripa pra lhe acompanharem na terra natal. Eu, Tadeu e Dió topamos.
Estando em Rio Branco, pra mim ficou claro o que muitos já temiam. Cesinha não voltaria tão cedo pro Sul. Deixou saudosa uma legião inteira, de amigos que enxergavam mais cores na vida quando ao lado dele. Mas agora Raimundinha precisava deste brilho. Raimundinha teve 2 filhos. Um deles morreu assassinado. Tiro nas costas, matador jamais localizado. O outro é o Cesinha.
Ele agora está ao lado da mãe, dos seus povos da floresta, das suas origens tão bonitas.
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De carona com o tio Zé Bezerra, figura caricata, deixamos Rio Branco na manhã de 06 de janeiro deste ano. Eu, Tadeu e Dió íamos pra fronteira com o Peru, seguir viagem. Cesinha mirava a fronteira com a Bolívia, município de Brasiléia, com sua contígua boliviana Cobija. Buscava o reencontro com o pai: 13 anos se passaram desde o último contato.
A referência de endereço não era, precisamente, na área urbana de Brasiléia. Era assim: “o sítio fica 17 km antes da cidade”. E só.
Chegamos ao ponto onde mandavam os cálculos de distância e a intuição. Havia cercas dos 2 lados, e uma porteira trancada. Ao lado dela 2 trabalhadores faziam suas lides. Perguntamos pelo Zé Pio. Responderam:
- Fica aí pra dentro, uns 3 km. Cuidado, tem cachorro bravo.
- Me empresta tua magrela?
- Pode usar.
- Cesinha, vou buscar teu pai.
Montei na Ceci e logo nos primeiros metros percebi que do freio não havia sequer resquício. As folgas nas peças eram até aturáveis, mas parar a cada 300 metros pra recolocar a corrente, não foi fácil. Sobe, desce, morrinho, encaixa corrente, ponte quebrada, poça, encaixa corrente, lama, cheguei n’outra porteira. O cachorro bravo era um guaipeka de dar dó.
Chamei e vieram 2 guris, um de uns 10 anos e feições indígenas, o outro já adolescente, mais mestiço. Anunciei o vivente que vinha do Sul. Me chamaram para entrar, a casa avarandada pequena e simples, ferramentas, brinquedos espalhados pelo chão, um calendário com propaganda de empório.
Zé Pio não estava. Ligaram para o pai, o celular rural funcionando a duras penas, insistiram até o aparelho dar uma chance, e marcaram um ponto de encontro na cidade.
Lama, poça, corrente, morrinho, etc., volto e no caminho dou de cara com Dió e o Cesinha, ele com seu andar de índio guerreiro e um robusto pedaço de mourão nas mãos.
- O q houve Fernandinho?
- Nada, a viagem não foi fácil, e demorou o contato com teu pai.
- Ah bom, pensei que o cachorro tinha te atacado !
…
Logo que voltei de um ritual de Daime na Barquinha, a querida Raimundinha me fez várias perguntas sobre o resultado, muito interessada. Lá pelas tantas perguntou:
- Fernandinho, você acha que eu consigo conversar com meu filho que morreu, se eu tomar o chá?
Meio sem jeito, respondi que o poder do Daime era bem forte, e que valeria a pena tentar.
…
Surge o desejo e a possibilidade de tomar o rumo Norte novamente neste fim de ano. Cesinha diz que já se prepara pra receber uns tantos aqui do Sul. Se algumas conjunturas e a Igreja dos Santos Créditos nas Finanças Pessoais permitirem, embarco sem dúvida. Desta feita, quem sabe, esticar a Manaus e ao Pará pra ver outros amigos desgarrados (Ninno, Rafito, Pacheco…)
Alguém se habilita?






Que legal o texto, daria de escrever um livro se for falar das nossas histórias com o Cesinha em Floripa, saudades!!! Bj Ananda
Gostei tb Fernando! eu não sabia da peripécia com as putas!!E tudo mais que vc conta; também tenho saudades daquela morada… puco compromisso foi fundamental.
Primoroso texto Angeoletto do Rio Apa, ainda mais tendo como personagem principal o nosso querido amigo e poeta Cesar Félix! Parabéns e voltarei aqui mais vezes, bebendo neste fonte lúdica e criativa!
Abraço do amigo Ze!
Muito bom seu texto, Fernando!!!
“Se algumas conjunturas e a Igreja dos Santos Créditos nas Finanças Pessoais permitirem, embarco sem dúvida.”
Lindo o texto Fernando! Você nos leva junto na viagem….