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Impressões de Amazônia

06/04/2011
Perdido nas estrelasDeixando ManausMundo de águasPonte sobre o Negro......ainda sem funçãoUm quê de mar
Anoitece no Rio NegroE o rastro da Maior Lua nos segueReciclagemTransformaçãoPreparativosDóceis águas
Alexandre, Fábio e FafáSeu PagãoPé no chãoBreno HerreaFafáParabéns !
Alegria, alegriaRafitoRapéIniciando a oficina de comunicaçãoHalloOlho cósmico

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Isolamento

A primeira sensação é de isolamento profundo. Passaram-se 40 horas desde que saímos de Manaus, com 2 pernoites no caminho, e só então pude avistar, numa manhã de terça, a comunidade de Lago das Pedras. Nem buteco, nem pracinha, nem luz elétrica, nem orelhão que não funciona. São 11 casinhas, algumas com teto de palha, e um centro comunitário inaugurado no ano passado. Ficaríamos ali ao longo da semana.

Plenitude

Já no segundo dia a inquietação transformou-se em plenitude. Não há algo melhor do que o silêncio ao invés de milhares de zumbis falando besteiras em celulares, nada é mais pleno que a paisagem livre de automóveis e propagandas. Sem o supérfluo da cidade, torna-se tudo mais verdadeiro.

Lago das Pedras

A comunidade de Lago das Pedras é uma das 11 esparsas ao longo do Rio Unini, afluente da margem direita do Negro. Tem esse nome porque estamos num ponto que é um apêndice do Rio, embora a imensidão de águas torne difícil identificar o detalhe; só se chega ali através de um “furo” na mata (é como chamam os pequenos canais). As comunidades do Rio Unini conformam uma RESEX (Reserva Extrativista), cuja castanha é o principal produto.

Negro Rio

Viajamos a bordo do Almirante Barbosa, que tem uns 30 m de comprimento, 2 andares onde aboletam-se as redes de dormir, cozinha, despensa, 2 banheiros, sala de comando e casa de máquinas. É preciso vista muito acurada, sobretudo nos trechos noturnos. Seu Aguiar, o comandante, não tem bússola ou GPS à disposição. O caminho é um labirinto de infinitas ilhas, em águas salpicadas por rochedos e bancos de areia. Volta e meia, ele jogava um facho de luz na margem, e diz que assim conseguia se localizar. Como saber, no meio de um visual tão homogêneo, qual é o “furo” que conduz ao Lago das Pedras? Mais um entre os tantos mistérios amazônicos.

Mosaico de Amazônias

A RESEX do Rio Unini, junto com as RDS* Rio Negro, Amanã e Tupé, os PARNA Jaú e Anavilhanas, os PAREST Rio Negro Setores Norte e Sul e as APA Paduari-Solimões, Aturiá-Apuaúzinho, Tarumã- Açu e Tarumã-Mirim, compõe o Mosaico de Áreas Protegidas do Baixo Rio Negro. É um instrumento de gestão compartilhada, potencializando esforços, recursos e pessoal, aliança de inestimável importância frente a Amazônia e seus superlativos.

A chancela de Mosaico foi dada pelo ICMBio no ano passado, concluindo uma série de procedimentos que duraram 5 anos. A partir daí, foi prevista uma jornada de 4 módulos de oficinas de capacitação para a equipe de conselheiros do Mosaico, formada por representantes das áreas protegidas, organizações da sociedade civil, setor empresarial e comunidades. É aí que eu entro nesta história.

Toda ação vem da imaginação

No 4o. e último módulo de oficinas, a comunicação foi um dos temas escolhidos pelos conselheiros. Fui convidado a trabalhar o assunto, junto com Layse Rodrigues (ICMBio/RJ), que é responsável pela comunicação do Mosaico Central Fluminense, cujo presidente é o companheiro dela, Breno Herrera, que também estava presente para compartilhar sua experiência como gestor.

Na minha oficina discutimos conceitos básicos envolvidos no ato de comunicar, com enfoque voltado à valorização de territórios. É missão do Mosaico fortalecer a identidade territorial, buscando soluções comuns aos seus povos e à conservação da biodiversidade. Guardadas as devidas peculiaridades geográficas, apresentei vários processos que acompanho aqui no Sul, de agroecologia ao turismo, passando pelo fortalecimento cultural através da gastronomia. A intenção era provocar, estimular, plantar ideias que as comunidades colherão conforme suas próprias estações. “Toda ação vem da imaginação”; este foi, em síntese, o lema do que apresentei por lá.

Logística

Não é fácil organizar uma expedição como esta. Nossa casa-barco tem que levar tudo: comida para 20 pessoas durante uma semana, cozinheira, combustível para barcos e geradores, lancha extra, equipamentos diversos. O que fazer lá naquele confim amazônico, se algo fosse esquecido? Palmas para a Fafá (Ana Flávia Zingra Tinto), presidenta do Mosaico e chefe da RESEX do Rio Unini, que foi exemplar no quesito logística, e em todos os demais.

Os guardiões

Eu considero a Fafá, o Alexandre, a Jô e o Fábio, do ICMBio de Novo Airão, e também a Thaia Cacciamali do INCRA, que deu uma brilhante palestra sobre a questão fundiária, como verdadeiros guardiões da Amazônia. A expansão da fronteira agrícola, nos moldes do Sul, com a “força da grana que ergue e destrói coisas belas”, pode acabar com tudo. Esses guerreiros fazem o que podem, a duras penas, para conservar a integridade daquela porção amazônica.

Antigamente, o IBAMA (que originou o ICMBio), era visto como um vilão. Também, pudera: o extremismo conservacionista produziu absurdos, como atravessar uma corrente de fora a fora no Rio Jaú, em 1985, impossibilitando o trânsito de ribeirinhos. Hoje, em muitos casos o ICMBio é a única presença do Estado em comunidades isoladas. O conceito de preservação evoluiu e não exclui as populações tradicionais, filhas e herdeiras do território. Ocupá-lo com responsabilidade é dever de todos, Estado e “comunitários”, como se denominam os ribeirinhos.

De colores

Passamos uma semana incrível. Todo fim de tarde íamos ao meio do lago para bons mergulhos. E de longe víamos nossa casa-barco, que nos aguardava com os deliciosos jantares da dona Sol, e com as redes que nos ninavam nas noites tranqüilas. Um dia, os nativos nos convidaram pra uma pelada. Fazia 10 anos que não me aventurava num campo (desde que nosso coletivo esportista de Floripa, a Sociedade dos Atletas Mortos, desfez-se quando um dos parceiros rachou o pé numa partida). Foi uma brincadeira deliciosa.

Quando voltávamos de visita à base do PARNA Jaú, vi uma das mais belas cenas desta breve vida. Um arcoíris dançava com suas duas pontas sobre o rio, inteirinho. Parecia que dava pra tocá-lo. Puro encanto amazônico. Por este e outros tantos motivos coloridos, fotografar era o passatempo predileto. Fotografia, para mim, é uma condição de imersão. Justamente como eu me sentia naquele ambiente.

Passos leves

No último dia, selecionei as melhores fotos, minhas e dos colegas de viagem, e organizei uma exposição pra comunidade. Ah, também fizemos, eu e o amigo Fábio Osolins (do PARNA Jaú), uma história em quadrinhos, com fotos de todos os personagens daquela semana. Ligamos tudo num datashow, movido à gerador, e projetamos em frente a uma das casas. Depois do agito a juventude local deu o tom: queremos baile!

Seu Pagão, o pastor (apesar do nome paradoxal), e seu Dionisio, o presidente da comunidade, autorizaram. Colocamos nossas músicas, mas ninguém deu bola. Então trouxeram os CD’s corretos. Foi brega, forró e dance pra ninguém botar defeito. Seu Pagão não abandonava nem por 1 minuto a porta do baile, cuidando de tudo. Quando algum engraçadinho apagava a luz, ele até deixava, mas só um pouquinho: logo apertava o interruptor de novo. Caboclinhas lindas deslizavam seus passos leves pelo salão, alheias aos suspiros da platéia.

Um pouco de mim

Por conta dos vôos e compromissos na cidade, nós, os professores, fomos embora de voadeira na manhã do sábado (26/03).  Com motor de 60 HP em potência máxima, foram 3 horas e 40 minutos de ilhas, matas, afluentes e “furos” Rio Negro abaixo, até o município de Novo Airão. O Almirante Barbosa chegaria somente de noite.

Um pouco de mim ficou na Amazônia, e eu sei que um dia volto pra reencontrar.

*Sopa de letrinhas

RDS: Reserva de Desenvolvimento Sustentável

PARNA: Parque Nacional

PAREST: Parque Estadual

APA: Área de Proteção Ambiental

ICMBio: Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade

Um Comentário leave one →
  1. Kabritu Link Permanente
    06/04/2011 12:47

    Fala Fernando!

    Em 2009 estive em Sao Gabriel da Cachoeira e subi todo o Rio Negro de voadeira ate a triplice fronteira para a realizacao do meu TCC “Soldados de Fronteira”! Aproveite sua estadia por ai cara! Esse e o verdadeiro coracao do nosso pais! Grande abraco!

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